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    • Futebol e religião como afinidades eletivas e o evangélico como outro repugnante

    Futebol e religião como afinidades eletivas e o evangélico como outro repugnante

    • Categorias Debates, Notícias, Novidades
    • Data 11 de agosto de 2026

        No mês passado, após a eliminação da seleção brasileira para a Noruega, nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, o The Times publicou um artigo de Stephen Gibbs intitulado “If we pray like a gringo, then we play like a gringo”, propondo uma explicação para o declínio do futebol brasileiro. Entre suas hipóteses, sustentava que a crescente presença do evangelicalismo neopentecostal no país teria alterado traços fundamentais da cultura nacional e, por consequência, da própria forma de jogar futebol. Como evidência, citava, entre outras coisas, a declaração de Endrick ao justificar ter desperdiçado uma clara oportunidade de gol, dizendo que poderia ter feito melhor, mas agradecendo a Deus pela oportunidade.

        A repercussão foi imediata. Durante dias, jornalistas, pesquisadores e comentaristas discutiram a hipótese apresentada pelo jornal britânico. Muitos apontaram o caráter simplificador dessa explicação. A nosso ver, a discussão que este argumento levanta, pode muito bem ser suplementada pela sociologia clássica de Max Weber e seu conceito de afinidades eletivas. Weber utiliza este conceito para descrever, não uma relação de causa e efeito entre configurações sociais e culturais. Olhando para a relação entre fé e ética profissional, por exemplo, em sua clássica obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Weber não afirma que um fenômeno produz automaticamente o outro. Afinidades eletivas dizem respeito à convergência entre práticas, valores e sensibilidades que passam a reforçar-se mutuamente. Trata-se de uma relação de correspondência, e não de causalidade direta.

        Talvez seja essa uma dificuldade da hipótese apresentada pelo The Times. Em vez de compreender as possíveis aproximações entre determinadas formas de religiosidade e determinadas formas de viver o futebol, o argumento corre o risco de estabelecer uma relação causal direta: o Brasil teria deixado de jogar bem porque deixou de ser católico. A realidade social, no entanto, é muito mais complexa do que isso. E essa complexidade talvez se implique no fato de que o futebol pode ser considerado o que Marcel Mauss chamou de fato social total, porque mobiliza dimensões econômicas, políticas, culturais, afetivas, religiosas e nacionais ao mesmo tempo. Não é só um esporte, mas um espaço privilegiado de produção de identidades, pertencimentos, consumo, afeto, etc.

        É justamente por isso que as afinidades eletivas parecem oferecer um caminho interpretativo mais interessante. Neste sentido, é curioso observar como o Brasil despertou nessa última copa, identificação com torcedores de lugares tão distintos como Bangladesh, Índia e Paquistão. Essas relações dificilmente podem ser explicadas por uma causa única. São aproximações culturais, simbólicas e afetivas construídas historicamente.
    O mesmo vale para fenômenos observados dentro do nosso próprio país. Não deixou de chamar atenção, e foi pauta de muita discussão nas redes, o fato de que há diversos brasileiros que torcem pela seleção argentina. Em São Paulo, por exemplo, entre os torcedores brasileiros simpáticos aos hermanos, parece haver alguns corintianos. Talvez exista aí uma afinidade com um determinado imaginário do futebol sul-americano, marcado pela raça, pelo esforço coletivo e pela disposição de nunca desistir. De novo, não se trata de afirmar uma relação causal (corintianos consequentemente serão simpáticos à seleção argentina), mas de perceber convergências de valores e sensibilidades.

        Nas redes, enquanto alguns brasileiros justificavam sua identificação pela seleção rival, outros estavam mais preocupados em compartilhar sua aversão pela seleção brasileira. Dinâmica comum a todo época de copa do mundo, neste ano as postagens críticas a seleção brasileira e a CBF, nos chamou atenção pela grande aderência ao argumento da culpa evangélica pela derrota da seleção masculina, inclusive em nossa rede de convivência acadêmica.

        Após a eliminação, nossas redes foram tomadas por postagens reproduzindo esse argumento, ilustradas por fotos de Neymar com a bandana “100% Jesus” ou de Endrick em oração com sua esposa, Gabrielly, em um momento de louvor numa igreja pentecostal de “parede preta” ou descolada, como nomeia Cristiana Rocha (2025). Nesse momento, percebemos que a correspondência entre futebol e religião, em alguns ciclos sociais, intensificou um sentimento de repulsa à seleção brasileira de futebol masculino e também ao pentecostalismo.

    Mas bom, se esse argumento revela uma fragilidade sociológica, justamente por ser monocausal, por quê ele encontrou tamanha reverberação?

        Cremos que também aí há diferentes caminhos de resposta, mas para nós, uma das explicações principais possíveis reside na projeção sobre a atual seleção, de uma alteridade cultural errada, um “outro cultural repugnante”. Susan Harding, em seu ensaio Representing Fundamentalism: the problem of the repugnant cultural Other (1991), critica a demarcação de oposição política na análise de atores conservadores cristãos. Segundo a autora, essa postura constrói uma oposição entre nós e eles que depende da noção de que já sabemos quem são eles e o que pensam. Essas representações, coproduzidas pela história da modernidade, deslocam pessoas para margens. No caso dos conservadores cristãos, eles são assumidos como uma alteridade repugnante por supostamente serem antimodernos, portadores de discursos ameaçadores e por se distanciar dos espaços, conceituais e políticos, ocupados por minorias étnicas e colonizadas (p.392).

        Trinta anos depois, apesar da contínua crítica a essa representação, continuamos presenciando essa repugnância em congressos acadêmicos. A pergunta “por que você está estudando esse lixo?”, que Simon Coleman recebeu de um colega e relatou em Borderlands: Ethics, ethnography and “repugnant” Christianity (2015), não é estranha para quem pesquisa o amplo e diverso campo do conservadorismo, composto também por atores evangélicos.

        Mas por que os evangélicos são alvos tão fáceis dessa rejeição? Outro sintoma decorrente da eliminação brasileira seria a proeminência da identidade evangélica, tanto como principal transformação do campo religioso brasileiro quanto pelo protagonismo em movimentos ligados ao recrudescimento do conservadorismo político.

        Tanto na seleção quanto na sociedade brasileira, a expressão evangélica cresce, mas não é o único movimento digno de nota. Na equipe masculina, jogadores declaradamente evangélicos já estavam presentes em títulos anteriores. O movimento Atletas de Cristo, fundado nos anos 1980, foi a expressão pioneira dessa nova religiosidade no futebol. Um dos primeiros nomes de destaque foi o goleiro Taffarel, que levantou a taça em 1994. Na comemoração do pentacampeonato em 2002, Kaká celebrou o título com a camiseta “I Belong to Jesus” (“Eu pertenço a Jesus”). Por outro lado, a seleção olímpica de futebol masculino responsável pelo nosso primeiro ouro contava com Paulinho, que era umbandista e filho de Oxóssi, comemorava seus gols com uma comemoração que fazia alusão ao seu Orixá de cabeça. Enquanto observamos um crescimento evangélico de 24,5% para 26,7% entre os censos de 2010 e 2022, religiões de matriz africana cresceram 233,3%, embora partindo de uma base menor, de 0,3% para 1%.

        Quanto a mobilização política, Burity (2016) argumenta que setores evangélicos passaram a se constituir progressivamente como religião pública e ator político coletivo, especialmente a partir da Constituinte de 1986, articulando demandas morais e identitárias em torno da autocompreensão de “povo”, as “pessoas de bem”. Essa explicação sobre o protagonismo conservador, contudo, ganha complexidade com Almeida (2021). Ao mapear os atores religiosos na estrutura executiva do governo Bolsonaro, o autor identifica uma direita religiosa extensa e transversal, que articula diferentes tradições, inclusive não cristãs. Esse deslocamento revela que, embora a centralidade política tenha se tornado plural, a imagem pública do movimento foi, em grande medida, capturada pela identidade evangélica. É precisamente essa projeção de centralidade que transforma o evangélico no alvo preferencial dessa “alteridade cultural errada”, o outro repugnante, tornando esse segmento o bode expiatório sensívelmente aceitável para explicar, em última instância, até mesmo a derrota da seleção brasileira.

        O problema não está, portanto, em investigar possíveis relações entre religião e futebol, porque de fato elas existem e oferecem um campo de análise rico e promissor. O erro está em substituir uma análise de cunho sociológico mais amplo por uma explicação monocausal. Em vez de perguntar se a ascensão evangélica piorou o futebol brasileiro, talvez seja mais interessante perguntar sobre: como diferentes culturas religiosas e diferentes culturas futebolísticas estabelecem relações de afinidade eletiva entre si? Essa talvez seja uma questão mais próxima ao real grau de complexidade da vida social.

    Autores:

    Adriel Torres Ferreira
    Doutorando
    PPGAS - IFCH/UNICAMP
    Renan Dantas
    Doutorando
    PPGAS - IFCH UNICAMP

    Referências:

    ALMEIDA, Ronaldo de. A religião de Bolsonaro: populismo e neoconservadorismo. In: AVRITZER, Leonardo; KERCHE, Fábio; MARONA, Marjorie (org.). Governo Bolsonaro: retrocesso democrático e degradação política. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.
    BURITY, Joanildo. Minoritisation and global religious activism: Pentecostals and ecumenicals confronting inequality in politics and culture. In: LLEWELYN, D.; SHARMA, S. (org.). Religion, Equalities and Inequalities. Abingdon; New York: Routledge, 2016. p. 137–148.
    COLEMAN, Simon. ZONAS FRONTEIRIÇAS: ÉTICA, ETNOGRAFIA E O CRISTIANISMO “REPUGNANTE”. Debates do NER, Porto Alegre, v. 1, n. 33, p. 271–312, 2018. DOI: 10.22456/1982-8136.88048. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/debatesdoner/article/view/88048.
    GIBBS, Stephen. If we pray like a gringo, then we play like a gringo. The Times, 8 jul. 2026. Disponível em: https://www.thetimes.com/world/latin-america/article/brazilians-blame-rise-protestants-world-cup-defeat-wz6bwljsd⁠.
    HARDING, Susan Friend. Representing Fundamentalism: The Problem of the Repugnant Cultural Other. Social Research, v. 58, n. 2, p. 373–393, 1991.
    MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. São Paulo: Cosac Naify, 2003.
    WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

    Tag:evangélicos, Futebol, Max Weber, pentecostalismo, Susan Harding

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