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    • A guerra (cristã) é feminina: uma análise discursiva do Congresso das “Mulheres Guerreiras”

    A guerra (cristã) é feminina: uma análise discursiva do Congresso das “Mulheres Guerreiras”

    • Categorias Artigos, Crônicas de Pesquisa, Novidades
    • Data 1 de fevereiro de 2026
    • Comentários 0 comentário

    […] dentro da minha casa, da quinta para a sexta, à meia-noite, eu
    senti uma coisa diferente: fiquei toda arrepiada. Eu senti uma dor à meia-noite e
    disse: “Isso não é normal”. Falei: “Luiz Henrique, ora aqui por mim, eu estou
    sentindo uma batalha”. Na sexta, não, foi da quarta para a quinta, quando chegou na
    quinta, eu vim pregar. Quando eu estava pregando, já no final da pregação, ao
    meio-dia, senti uma apunhalada aqui na barriga e eu disse: “Deus, o que é isso?”. Eu
    senti a luta espiritual, irmãos, porque o que Deus vai realizar hoje, nesta noite, vai
    ser algo tremendo. Aleluia!
    (trecho da pregação da Bispa Vanessa Lima no CMG 2024)

    Conheça a pesquisa de Kerolaine de Castro Oliveira (UECE), sua hipótese de reconfiguração de sujeitas religiosas e mobilização de Saba Mahmood

    Este trabalho tem como tema A guerra (cristã) é feminina: uma análise discursiva do Congresso das “Mulheres Guerreiras” e é resultado de Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE). A monografia foi defendida no dia 9 de dezembro de 2025, sob orientação do Prof. Dr. Emanuel Freitas da Silva.

    Resulta de uma pesquisa qualitativa e etnográfica desenvolvida a partir do Congresso Mulheres Guerreiras, promovido pela Igreja do Senhor Jesus (ISJ), em Fortaleza, nos meses de julho e agosto de 2024. O evento, voltado ao público feminino evangélico, reuniu milhares de mulheres e contou com ampla divulgação por meio das redes sociais, transmissões ao vivo
    e plataformas digitais, configurando-se como um espaço privilegiado para a análise das articulações contemporâneas entre religião, gênero e protagonismo feminino no pentecostalismo brasileiro.

    O interesse pelo Congresso emerge das andanças da pesquisadora pelo campo religioso e da observação de sua crescente midiatização. O primeiro contato com o evento ocorreu por meio das redes sociais, a partir da divulgação de um card no qual a Bispa Vanessa Lima, líder da igreja ao lado de seu esposo, o apóstolo e deputado estadual Luiz Henrique (Republicanos), aparecia ao lado de uma cantora gospel convidando para o Congresso. À primeira vista, tratava-se de mais um entre tantos eventos voltados para o público feminino evangélico. O interesse inicial da pesquisa concentrava-se na possibilidade de o evento ser utilizado como espaço de promoção política, considerando o contexto pré-eleitoral e a atuação pública da liderança religiosa, hipótese que, ao menos de forma explícita, não se confirmou. Ao chegar ao local, entretanto, a pesquisadora foi surpreendida pela dimensão da estrutura e pela organização do evento. O espaço era cuidadosamente marcado pela cor rosa, com uma infraestrutura tecnológica robusta voltada para a transmissão online, com difusão simultânea pelas redes sociais e pelo YouTube. Uma multidão de mulheres vestidas de rosa ocupava o templo, exibindo camisetas com o slogan “Mulheres Guerreiras”, compondo um cenário no qual estética, performance e identidade se articulavam de forma simbólica e coletiva.

    Fotografia do evento publicada nas redes sociais da Bispa Vanessa Lima

    A mensagem central do Congresso foi ministrada pela Bispa Vanessa Lima, principal liderança feminina da ISJ. Inicialmente previsto para ocorrer em apenas um único dia, o evento acabou sendo estendido para dois encontros: o primeiro em julho e o segundo em agosto de 2024; em razão do cancelamento da participação da cantora convidada, Damares. O imprevisto foi comunicado logo no início do evento e interpretado pela liderança como uma batalha espiritual, compreendida como um ataque pessoal do diabo. Essa interpretação conferiu sentido religioso ao ocorrido e reforçou a narrativa de que mulheres cristãs vivem sob constante ameaça do mal, sendo convocadas a travar guerras espirituais contínuas.

    Recorte retirado do site de apresentação da Igreja na qual a liderança religiosa é apresentada, marido e sua esposa.
    Recorte retirado do site da igreja

    Partindo da hipótese de uma possível reconfiguração da mulher enquanto sujeita religiosa feminina, a pesquisa busca compreender como se constroem, discursivamente, as noções de “mulher guerreira”, quais sentidos são atribuídos à ideia de guerra e contra quem essa guerra se dirige. A noção de “mulher guerreira” é tratada como categoria empírica central, permitindo identificar elementos implícitos de gênero no discurso religioso e compreender como experiências femininas – como sofrimento, violência doméstica, conflitos familiares, desigualdades e expectativas sociais – são reelaboradas à luz da teologia pentecostal da guerra espiritual.

    O ponto alto do primeiro dia do Congresso ocorreu quando a Bispa Vanessa dirigiu sua fala diretamente às “mulheres guerreiras”, tensionando, em certa medida, tradições de silenciamento feminino nos púlpitos. Em sua mensagem, abordou temas comumente associados ao debate feminista, como a violência doméstica e psicológica, situações de abuso no interior do matrimônio e formas de sofrimento feminino, fazendo referência explícita à Lei Maria da Penha e mobilizando categorias como patriarcado e machismo. Esse vocabulário tensiona as fronteiras entre o discurso religioso conservador e discursos historicamente vinculados ao feminismo, produzindo uma gramática religiosa para nomear dores, feridas e injustiças vividas pelas mulheres, sendo a noção de guerra espiritual mobilizada para explicar situações de vulnerabilidade e sofrimento feminino.

    Enquanto o primeiro dia do Congresso foi dedicado ao reconhecimento das feridas invisíveis e das batalhas enfrentadas pela mulher guerreira, o segundo dia concentrou-se nas formas pelas quais essas mulheres poderiam vencer a guerra espiritual. O discurso desloca-se, então, da nomeação da dor para a proposição de estratégias simbólicas de enfrentamento, nas quais a disciplina espiritual, a vigilância moral, a obediência às orientações religiosas e a incorporação de modelos bíblicos femininos aparecem como caminhos para a vitória.

    O trabalho também se dedica à discussão sobre pentecostalismo e mulheres no Brasil, buscando compreender as especificidades da inserção feminina nesses espaços religiosos. De forma ambiciosa, apropria-se da noção de agência, nos termos de Saba Mahmood, para pensar a agência no contexto religioso, repensando as formas pelas quais mulheres cristãs têm produzido ação, sentido e pertencimento no espaço religioso, mesmo diante das regras, hierarquias e limitações impostas pelas instituições.

    Metodologicamente, o trabalho foi construído a partir de uma abordagem qualitativa e etnográfica, tomando o Congresso Mulheres Guerreiras como campo empírico. A análise apoia-se na observação direta do evento, na experiência da pesquisadora em campo, em registros fotográficos, na análise de transmissões ao vivo, materiais de divulgação, postagens
    em redes sociais e na transcrição das falas proferidas durante o Congresso. A observação do evento também permitiu identificar, à luz da definição de mega templos, uma série de bens e serviços que compõem a instituição, como a estrutura tecnológica de transmissão, a organização logística, os materiais de divulgação e a circulação de produtos simbólicos, evidenciando a dimensão organizacional, midiática e econômica que atravessa a realização do evento religioso.

    A partir desse enquadramento, o trabalho analisa como se deu a mobilização para o Congresso, a quem o discurso é direcionado e qual o lugar social e institucional da Bispa Vanessa enquanto liderança feminina. Ao explorar tópicos como “Segredos de uma guerra vencida: como vencer uma guerra?”, a análise evidencia a mobilização de exemplos de mulheres bíblicas e a construção de arquétipos femininos que funcionam como modelos normativos de conduta, orientando formas específicas de comportamento feminino.

    Por fim, o trabalho problematiza a forma como a rejeição à violência contra as mulheres tem sido formulada por lideranças religiosas femininas, bem como os limites, alcances e efeitos desse posicionamento. Ao analisar o Congresso Mulheres Guerreiras como evento religioso, midiático e social, a pesquisa contribui para os debates contemporâneos sobre religião e gênero demonstrando que o protagonismo feminino no campo religioso é atravessado por ambivalências e negociações.

    Kerolaine de Castro Oliveira é mestranda em Sociologia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), instituição na qual também cursa sua segunda graduação em Ciências Sociais. Desenvolve pesquisas na área de Sociologia Política, com ênfase na atuação política de evangélicos e representação política.

    Tag:Congresso de mulheres, feminino cristão, feminino evangélico, feminismo cristão, gênero, kerolaine de castro oliveira, mulheres guerreiras, Oliveira, Oliveira Kerolaine, Saba Mahamood, Sociologia

    Adriel Torres

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